A travessia do empresário
Antes da crise pessoal, eu já vinha vivendo outra travessia, a do empresário que viu uma visão de mais de R$ 1 bilhão se materializar de outro jeito, contra a sua vontade. Conto agora porque essa história sustenta tanto quanto a outra a tese que defendo hoje.
Operei dois negócios em paralelo durante o auge da minha trajetória pré-Ventrium. De um lado, a Salesfarm onde atuava como CEO e único fundador, tocando o modelo de Sales-as-a-Service que cresceu na pandemia. Do outro, o Salesclube empresa de educação empresarial que cofundei com três sócios em 2021, geradora de caixa, crescendo aceleradamente, onde atuava como sócio, mentor e palestrante.
A visão estratégica alinhada com os sócios da Salesfarm era de que eu precisava construir autoridade pública em vendas para que o mercado soubesse quem é a mente por trás do que fazíamos. Estar no palco do Salesclube fazia sentido e logo ele decolaria como o maior player de educação em vendas do Brasil. Como eu era o único sócio vivenciando os dois mundos por dentro, identifiquei em 2022 uma oportunidade que parecia genial: fundir as duas operações em um único movimento.
A tese era clara e validada por números.
De um lado, criei um modelo de consultoria de implantação de máquina de vendas — metodologia desenvolvida na Salesfarm que passamos a comercializar pelo Salesclube. Aumentou retenção e resultados dos clientes, gerou receita para a Salesfarm com muito menos esforço do que terceirização pura, e funciona até hoje como uma das maiores fontes de receita do Salesclube.
Do outro, peguei ao mesmo tempo a operação comercial do Salesclube e a venda de cinco franquias da 300F para vender no modelo Salesfarm. Coloquei o "meu na reta" para validar a metodologia em cenário real, com sócios externos olhando de perto.
O resultado foi a sociedade entre Salesfarm e um grupo investidor estratégico do varejo, com aporte de R$ 6 milhões por 15% da Salesfarm, MOU assinado, e o Grupo Sales sendo construído a todo vapor. Igualamos o valuation das duas empresas em R$ 40 milhões cada e, de cara, já tínhamos uma companhia com mais de R$ 80 milhões de valuation conjunto. O BP projetava R$ 1,44 bilhão de valuation em 3 anos meta que concebi e vendi para todos os sócios das duas empresas. E estávamos batendo todas as metas até ali.
R$ 80M
Valuation conjunto realizado
Salesfarm e Salesclube, com MOU assinado e investimento estratégico aportado.
R$ 1,44 bi
Valuation projetado · BP 3 anos
Tese validada por sócios e investidor externo. Estávamos batendo todas as metas do plano até a quebra.
Foi aí que veio a parte idiota da ideia.
Após vender a tese para todos os sócios das duas empresas, iniciamos a integração na prática produtos, time, execução do BP integrado sem formalizar os combinados juridicamente. Foi essa a parte que percebi tarde demais que era idiota. Subestimei a capacidade que o ego tem de superar a razão e por tudo a perder. E foi isso que aconteceu.
Por quebra de afeição societária termo jurídico que aprendi para me referir a problemas entre sócios — o Grupo Sales não aconteceu como planejado. Mesmo com tudo a nosso favor, tivemos que dar rollback na criação do grupo. Contra a minha vontade. Mas a situação foi além do meu controle e o BP de R$ 1,44 bilhão foi por água abaixo. Vi escorrer pelas minhas mãos, sem ter o que fazer, todo o esforço que tinha colocado para viabilizar tudo aquilo que havia enxergado.
Desta vez não consegui resolver. O plano falhou, a fusão não aconteceu como planejado, e eu tive que aceitar essa realidade.
Mas a história não terminou ali. E aqui é onde o operador opera.
Em 2023, a Salesfarm foi vendida não nos termos que eu havia desenhado, mas a saída aconteceu. Foi o segundo M&A da minha trajetória. As operações do Grupo Sales já estavam tão bem integradas que o core metodológico da Salesfarm — a implantação de máquina de vendas — havia se tornado o principal atrativo do Salesclube. A integração essencial das duas marcas aconteceu por outro caminho.
Em 2024, assumi o Salesclube como CEO. A empresa estava em declínio, perdendo tração, com operação esticada. Em menos de doze meses, faturamento e EBITDA triplicaram. No final do mesmo ano, saí da operação executiva e da sociedade. Foi o terceiro exit da minha trajetória.
Três exits. Um turnaround. E uma escolha consciente: recomeçar do zero, fora do barulho, para construir o próximo ato com método novo.
2025 foi ano de caverna. Saí do palco público e dediquei doze meses inteiros à construção do Grupo Ventrium — método, infraestrutura, time, frentes, tese. Operação inteira nasceu fora do holofote, antes de qualquer comunicação pública. Fiz desta vez o oposto do Grupo Sales: construí antes de comunicar.
Hoje, quando construo a estrutura do Grupo Ventrium, ou quando ajudo um cliente a estruturar a operação comercial dele, ou quando avalio uma parceria estratégica nova, eu opero com cicatriz visível. Não confundo mais entusiasmo de sócio com governança de empresa. E não confundo mais visão com execução. Essa diferença foi paga.